Imagine receber alta da UTI Neonatal com seu bebê prematuro nos braços e, semanas depois, descobrir que ele precisava ter sido examinado pelo oftalmologista ainda durante a internação. Esse cenário acontece com mais frequência do que deveria, e a janela de oportunidade para tratar a retinopatia da prematuridade (ROP) é estreita. Quando perdemos esse prazo, as consequências podem ser irreversíveis: descolamento de retina e cegueira permanente em uma criança que mal começou a vida.
Neste post, vou explicar exatamente como funciona o protocolo de triagem ROP no Brasil, quais bebês precisam ser examinados, em que momento os exames devem acontecer e o que ocorre dentro do consultório durante essa avaliação. Se você é pai, mãe, ou profissional de saúde que acompanha prematuros, leia até o final — as informações aqui podem, literalmente, salvar a visão de uma criança.
O que é ROP e por que o rastreamento é urgente
A retinopatia da prematuridade é uma doença que afeta os vasos sanguíneos da retina em desenvolvimento. Fora do útero antes do tempo, a retina do bebê prematuro recebe oxigênio em concentrações que ela ainda não está preparada para processar, o que desencadeia um crescimento vascular anômalo. Em casos graves, esses vasos proliferativos tracionam a retina, levando ao descolamento. O problema é que tudo isso acontece em silêncio — o bebê não chora de dor, não pisca de forma diferente, e os pais não percebem nada. Só o exame de fundo de olho com dilatação, feito por um especialista em retina, consegue identificar a doença nos estágios em que o tratamento ainda é eficaz.
Quais bebês devem passar pela triagem ROP
No Brasil, o Ministério da Saúde e o Conselho Brasileiro de Oftalmologia definem critérios claros para indicar o rastreamento. Na minha prática, oriento as equipes de neonatologia desde o início da internação para que nenhum bebê elegível saia sem o encaminhamento. Os critérios principais são:
- Todos os prematuros com idade gestacional ao nascimento igual ou inferior a 32 semanas
- Todos os prematuros com peso de nascimento igual ou inferior a 1.500 gramas
- Prematuros entre 32 e 36 semanas ou com peso entre 1.500 g e 2.000 g que apresentaram fatores de risco — como sepse, transfusão sanguínea, apneia grave, ou uso prolongado de oxigênio suplementar
Esse último grupo é frequentemente esquecido. Bebês que nascem com 34 semanas e ficam na UTI com suporte de oxigênio por complicações respiratórias graves também têm risco aumentado e precisam ser avaliados. Sempre que houver dúvida, a recomendação é examinar.
Quando deve ser feito o primeiro exame
O timing do rastreamento é calculado a partir da idade pós-menstrual (IPM) — ou seja, a idade gestacional ao nascer somada às semanas de vida. Essa lógica existe porque a ROP se desenvolve em função da maturação retiniana, não apenas da data de nascimento. De forma geral, o primeiro exame deve ser realizado entre a 4ª e a 6ª semana de vida cronológica, nunca antes da 31ª semana de idade pós-menstrual. Na prática, para um bebê que nasceu com 28 semanas, o primeiro exame ocorre por volta das 4 a 5 semanas de vida, quando ele já está com 32 a 33 semanas de IPM. Para um bebê de 26 semanas, esperamos até completar 31 semanas de IPM, o que pode significar 5 semanas de vida. Esses cálculos são feitos individualmente, e cabe ao oftalmologista junto com a neonatologia definir a data exata para cada paciente.
Como é feito o exame de rastreamento na prática
Vejo muitos pais ansiosos quando explico que vamos examinar os olhos do filho ainda na UTI ou logo após a alta. É compreensível — o bebê é pequeno, frágil, e qualquer procedimento gera preocupação. Por isso, gosto de descrever cada etapa com transparência.
- Dilatação pupilar: cerca de 30 a 60 minutos antes, colírios midriáticos (geralmente tropicamida e fenilefrina em doses pediátricas baixas) são instilados para dilatar a pupila.
- Anestesia tópica: uma gota de colírio anestésico é aplicada para reduzir o desconforto.
- Blefarostato pediátrico: um pequeno instrumento mantém as pálpebras abertas durante o exame. O bebê costuma demonstrar desconforto com choro, mas não há risco de lesão.
- Oftalmoscopia indireta binocular: o examinador utiliza um capacete com lente e luz para visualizar toda a retina, incluindo a periferia onde a ROP se manifesta primeiro.
- Retinografia ou RetCam: em muitos centros, câmeras especializadas registram imagens da retina para documentação e acompanhamento evolutivo.
O exame dura em média 5 a 10 minutos por olho. Após o procedimento, o bebê pode ficar irritado por alguns minutos, mas se acalma rapidamente. Os efeitos da dilatação desaparecem em poucas horas.
O que acontece depois do primeiro exame
Dependendo do resultado, o intervalo para o próximo exame varia. Retinas imaturas mas sem doença ativa exigem reavaliação em 1 a 2 semanas. Quando identificamos ROP em estágios iniciais (1 ou 2 sem doença plus), o acompanhamento é mais frequente. Nos casos com indicação de tratamento — ROP estágio 3, zona I, ou com doença plus — agimos rapidamente com laser ou, em casos selecionados, injeção intravítrea de anti-VEGF. A mesma lógica de vigilância contínua que aplicamos em condições como a retinopatia diabética vale aqui: identificar precocemente é o que define o prognóstico. O rastreamento continua até que a retina esteja completamente vascularizada, o que geralmente ocorre entre 42 e 45 semanas de idade pós-menstrual. Após esse ponto, o risco de progressão é mínimo e o bebê recebe alta do protocolo ROP — mas segue em acompanhamento oftalmológico periódico, pois prematuros têm maior risco de miopia, estrabismo e ambliopia ao longo da infância.
O papel da família e da equipe multidisciplinar
A triagem ROP depende de uma cadeia que começa na maternidade e envolve neonatologistas, enfermeiros, e oftalmologistas. Famílias bem informadas são parceiras essenciais nesse processo. Se seu filho foi prematuro e você não tem certeza se ele foi examinado conforme o protocolo, ou se recebeu alta sem encaminhamento oftalmológico, procure um especialista em retina o quanto antes. Assim como investigamos a degeneração macular em adultos com exames específicos, o fundo de olho do prematuro exige avaliação especializada — não basta uma triagem visual comum.
Se você é pai ou mãe de um bebê prematuro e ainda não realizou o exame de rastreamento, ou se tem dúvidas sobre os resultados do último exame do seu filho, entre em contato comigo. Na consulta, analiso o histórico completo do bebê, realizo ou reviso o exame de fundo de olho com dilatação, e explico cada achado de forma clara para você sair com segurança sobre o próximo passo. Fale diretamente pelo WhatsApp e nossa equipe vai orientar você sobre como agendar com prioridade.




