Imagine um bebê nascido com apenas 28 semanas de gestação, superando cada desafio na UTI neonatal, ganhando peso, respirando sozinho — e então, semanas depois, recebendo o diagnóstico de uma doença ocular que poderia ter sido evitada se detectada alguns dias antes. Essa situação, infelizmente, ainda acontece no Brasil. A retinopatia da prematuridade (ROP) é uma das principais causas evitáveis de cegueira infantil no mundo, e o rastreio sistemático existe exatamente para impedir que esse desfecho se repita.
Neste post, explico o que acontece na retina do bebê prematuro, quais recém-nascidos precisam obrigatoriamente de avaliação oftalmológica, como a triagem funciona na prática e o que os pais podem esperar do acompanhamento. Se você tem um filho prematuro ou acompanha famílias nessa situação, vale ler até o final — as informações aqui podem fazer diferença real na saúde visual de uma criança.
Por que a retina do prematuro é vulnerável
A vascularização da retina começa por volta da 16ª semana de gestação e só se completa próximo ao termo, em torno de 40 semanas. Quando o bebê nasce prematuro, esse processo de crescimento dos vasos retinianos ainda está incompleto. Fora do ambiente uterino, o recém-nascido é exposto a concentrações de oxigênio e a variações metabólicas para as quais sua retina ainda não estava preparada. Isso pode desencadear uma resposta anormal: os vasos crescem de forma desordenada, proliferando para o vítreo — a substância gelatinosa que preenche o interior do olho.
Essa proliferação vascular anômala é exatamente o que define a ROP. Em casos leves, o processo se resolve espontaneamente. Em casos mais avançados, as trações causadas por essas membranas vasculares podem levar ao descolamento de retina e à perda permanente da visão. A velocidade com que a doença progride em alguns bebês é o principal motivo pelo qual o rastreio precisa ser iniciado dentro de prazos rigorosos.
Quais bebês devem ser rastreados para ROP
No Brasil, o Conselho Brasileiro de Oftalmologia e a Sociedade Brasileira de Pediatria estabelecem critérios claros para indicar quais recém-nascidos precisam de avaliação. Na minha prática, reforço sempre para as equipes de neonatologia: a triagem não é opcional nesses casos — é parte do cuidado padrão.
Os critérios de rastreio incluem os seguintes grupos de bebês:
- Peso de nascimento igual ou inferior a 1.500 gramas, independentemente da idade gestacional.
- Idade gestacional igual ou inferior a 32 semanas, independentemente do peso.
- Recém-nascidos entre 32 e 36 semanas e/ou com peso entre 1.500 g e 2.000 g que apresentaram intercorrências clínicas graves, como sepse, apneia recorrente, transfusões de sangue ou uso prolongado de oxigênio suplementar.
Esse último grupo merece atenção especial. Um bebê de 34 semanas com peso adequado pode parecer clinicamente estável, mas se passou por situações de estresse metabólico intenso, seu risco de ROP é real e o rastreio deve ser indicado pelo neonatologista em conjunto com o oftalmologista.
Quando e como o exame de rastreio é feito
O momento do primeiro exame segue um protocolo baseado na idade pós-concepção — ou seja, a soma da idade gestacional ao nascer com as semanas de vida. De forma geral, o exame deve ocorrer entre a 4ª e a 6ª semana de vida, respeitando também uma idade pós-concepção mínima de 31 semanas. Esse cálculo é feito pelo oftalmologista em conjunto com a equipe da UTI neonatal.
O exame em si é realizado com dilatação pupilar e uso de um oftalmoscópio binocular indireto, instrumento que permite visualizar toda a periferia da retina — justamente onde a ROP se inicia. O bebê é avaliado enquanto ainda internado, sempre que possível. Após a alta, o seguimento ambulatorial continua até que a vascularização retiniana esteja completa ou até que a doença, se presente, seja tratada e estabilizada.
Classificação da doença e quando o tratamento é necessário
A ROP é classificada por zona (localização na retina), estágio (grau de gravidade da proliferação vascular) e pela presença ou ausência de doença plus — sinal de tortuosidade e dilatação dos vasos retinianos que indica atividade mais agressiva da doença. Essa combinação de fatores define se o bebê precisa apenas de acompanhamento ou de intervenção.
O tratamento, quando indicado, pode ser feito com laser na retina periférica ou com injeção intravítrea de medicamentos antiangiogênicos — substâncias que bloqueiam o crescimento vascular anormal. A escolha depende da zona afetada e do perfil clínico do bebê. Ambas as abordagens têm excelentes resultados quando realizadas no momento certo, o que reforça, uma vez mais, a importância do rastreio dentro dos prazos corretos.
O papel dos pais no acompanhamento pós-alta
Vejo frequentemente famílias que, aliviadas com a alta da UTI neonatal, acabam perdendo as consultas de retorno oftalmológico. Compreendo o esgotamento que esse período causa — mas é justamente após a alta que algumas formas de ROP podem progredir ou que o diagnóstico em bebês de risco moderado é confirmado. Manter o calendário de consultas é parte indispensável do cuidado.
Além do acompanhamento específico para ROP, crianças prematuras têm maior risco ao longo da infância de desenvolver miopia, estrabismo e ambliopia. O seguimento oftalmológico regular, portanto, vai muito além da fase neonatal. Assim como ocorre em outras condições da retina — como a retinopatia diabética ou a degeneração macular —, o acompanhamento contínuo é o que permite intervir antes que danos irreversíveis ocorram.
Perguntas frequentes dos pais
Algumas dúvidas aparecem com regularidade nos atendimentos. Reunir as principais ajuda a orientar famílias que chegam sem saber por onde começar:
- A ROP causa dor no bebê? Não. A doença é assintomática — o bebê não chora nem demonstra desconforto ocular, o que torna o rastreio ainda mais essencial.
- Se meu filho teve ROP leve e regrediu, ele está curado? Em geral sim, mas ele ainda tem risco aumentado de miopia e outras alterações refrativas, e precisa de acompanhamento oftalmológico periódico.
- O exame machuca o bebê? O procedimento causa desconforto momentâneo pela dilatação, mas é rápido e seguro quando realizado por especialista com experiência em pacientes neonatais.
- Meu filho nasceu com 32 semanas, mas não teve intercorrências. Precisa de rastreio? Sim, porque 32 semanas já é critério independente de intercorrências.
Se você é pai ou mãe de um bebê prematuro e ainda tem dúvidas sobre se o rastreio foi realizado corretamente, ou se quer entender os laudos dos exames já feitos, estou disponível para orientar. Entre em contato pelo WhatsApp, descreva brevemente a situação do seu filho — idade gestacional ao nascer, peso e se já houve algum exame oftalmológico — e minha equipe irá agendar uma consulta em que avaliarei os documentos, farei o exame de fundo de olho se necessário e explicarei com clareza qual o risco real e qual o próximo passo para proteger a visão do seu bebê.




